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Postado por Paulo André em 19/04/2011 às 12:17h


Primeira Pré-Temporada na França

Primeira Pré-Temporada na França

 

As comparações são inevitáveis. Todo mundo quer saber se os treinos na Europa são melhores que no Brasil ou se o jogo lá é muito diferente do de cá. Eu costumava dizer que era quase outro esporte, tamanha a diferença da velocidade e da tática do jogo. Isso, sem contar os treinos, que diferem dos daqui tanto em quantidade quanto em intensidade.

Às vezes sinto falta das coisas de lá, às vezes acho que estamos melhores aqui. De qualquer forma, a minha primeira impressão da preparação física europeia foi algo pra não esquecer nunca mais.

Dia 26 de junho de 2006, assino meu contrato e me apresento no clube. Dia 27 de junho, toda a equipe do Le Mans viaja para Megève, na Suiça, cidade conhecida pelas famosas estações de esqui.

Chegamos ao hotel às 10hrs da manhã. Almoço meio dia. Disseram pra descansar e descer ao saguão às 14hrs para iniciarmos a pré-temporada. Pelo menos foi isso que o Grafite, meu companheiro de quarto, me traduziu. (Mal sabia eu que o francês dele já era pior desde o meu primeiro dia de França haha).

 

Ao chegar ao lobby, dezenas de bicicletas e capacetes ocupavam todos os espaços do hotel. Os jogadores começaram a colocar os capacetes, subir nas bicicletas e sair pra rua. Eu olhei pro Grafite, que estava fazendo o mesmo. Imitei meu companheiro e segui atrás da galera.
 
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O treino era andar de bicicleta por uma hora e meia, puxados pelo treinador e pelo preparador físico, que se divertiam escolhendo trilhas perigosas nas subidas e descidas das montanhas.

Numa delas, e já debaixo de chuva, o Grafite não conseguiu desviar e acabou caindo morro abaixo. Ele deve ter caído uns dois ou três metros e me lembro quando, uns cinco minutos depois, ele apareceu à nossa vista, com a bike nas costas, todo cortado (cotovelo, pescoço e joelho), reclamando daquela brincadeira sem graça!
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Subimos na bicicleta de novo e seguimos nosso “trabalho” até a nascente de um rio, no pé da montanha. Lá, tinha um furgão, cheio de caiaques, remos e coletes salva-vidas.
 
Lá fomos nós de novo, nos vestimos para mais uma aventura. Eu e meu fiel escudeiro (e tradutor) Grafite, fizemos a dupla no mesmo caiaque. Eu entrei primeiro e percebi que a água estava congelante, até porque vinha do gelo no topo da montanha. Grafite entrou no caiaque e cinco segundos depois, a porra do barquinho virou. Eu não sabia se xingava o Grafite ou se tentava desvirar o caiaque pra subir logo e sair daquela água gelada.

Tudo bem, trabalho é trabalho, vamos lá.

Seguimos em frente, desviando de pedras, passando um frio desgraçado porque estávamos molhados da queda e sem fazer a menor ideia de onde aquilo ia nos levar.

Em certo ponto do rio, uma hora e meia depois do início, vimos a comissão técnica, que fez todo o trajeto conosco, encostando na margem e descendo em terra firme. Os outros jogadores acompanharam o movimento. Eu e Grafite seguimos o fluxo, loucos para pegar a van e voltar pro hotel. Mal sabíamos o que estava por vir!

Tira a roupa de caiaque, coloca a roupa de alpinista. Dois bastões pra cada um, pra apoiar na caminhada rumo a 2 mil metros de altitude. Subimos por mais ou menos três horas, juro! Passamos desfiladeiros onde só passava um pé de cada vez, e as pedrinhas caindo lá pra baixo. Pensamos em desistir, apelar com o treinador, pensamos em tudo.

Pensamos até como faríamos pra descer aquela montanha. Será que eles vão inventar um paraglide? Kkkk…. Conversamos sobre todas as possibilidades, até porque em três horas de subida, eu já tava quase falando francês. Pelo menos aprendi uns dois palavrões, só pra xingar o pessoal lá da frente.

Às 20h daquele dia, chegamos no destino. Um chalé lindo, com uma vista incrível para as montanhas e para várias garrafas de cerveja e petiscos. Segundo os franceses: objetivo conquistado, comemoração garantida. Jogadores e comissão técnica bebendo e falando sobre a epopeia que tínhamos acabado de vencer.


Depois da alegria, hora do banho. Eis a primeira constatação em solo francês - franceses não gostam muito desse negócio de banho. Era um chuveiro só, pra 30 atletas mais a comissão técnica. Água gelada! A maioria fugiu, preferiu deitar e descansar.

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Hora de dormir, mas por quê? Cade o paraglide? Quero descer daqui!!! Não, não... vamos ter que dormir no chalé porque amanhã cedo subiremos mais 600 metros, rumo ao topo da montanha.
Beliches espalhadas por um único quarto, como um albergue daqueles de filmes antigos. Mas beleza, eu estava tão cansado que nem percebi se a cama era boa, se tinha barulho lá fora... Hora do descanso dos justos!

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Acordamos às 8h, e aproveitei o café da manha pra tirar o atraso na fome. Me enchi de pão com manteiga e água, porque o café estava “intomável”. Seguimos viagem, rumo ao topo da montanha. Subimos pelo gelo, em fila indiana, sem conversa, sem paciência, só por obrigação.

Lá em cima, tudo lindo, uma paisagem fenomenal, inesquecível.

Hora de descer, que tal correrem? Pois é, africanos, japoneses, sérvios e franceses correndo, se divertindo e eu e meu tradutor Grafite nos perguntando: onde é que a gente veio parar?!

A história terminaria aqui, mas aconteceu uma coisa que não pode ficar sem registro. Volto pra Le Mans e ligo pro Michel Bastos, que também tinha saído do Atlético Paranaense para o Lille da França, na mesma época que eu. Quero saber como ele está, se está se adaptando bem, se está falando alguma coisa em francês. Aproveito a ligação pra contar da nossa pré-temporada, ver se ele se solidariza com tudo que passamos e ele com uma naturalidade muito grande disse: “Sorte a sua, porque nós fizemos tudo isso e ainda tivemos que subir a montanha com a bicicleta nas costas”! Hahaha…

 

 

É mole?
Vive la France!
P.A

 

As comparações são inevitáveis. Todo mundo quer saber se os treinos na Europa são melhores que no Brasil ou se o jogo lá é muito diferente do de cá. Eu costumava dizer que era quase outro esporte, tamanha a diferença da velocidade e da tática do jogo. Isso, sem contar os treinos, que diferem dos daqui tanto em quantidade quanto em intensidade.

Às vezes sinto falta das coisas de lá, às vezes acho que estamos melhores aqui. De qualquer forma, a minha primeira impressão da preparação física europeia foi algo pra não esquecer nunca mais.

Dia 26 de junho de 2006, assino meu contrato e me apresento no clube. Dia 27 de junho, toda a equipe do Le Mans viaja para Megève, na Suiça, cidade conhecida pelas famosas estações de esqui.

Chegamos ao hotel às 10hrs da manhã. Almoço meio dia. Disseram pra descansar e descer ao saguão às 14hrs para iniciarmos a pré-temporada. Pelo menos foi isso que o Grafite, meu companheiro de quarto, me traduziu. (Mal sabia eu que o francês dele já era pior desde o meu primeiro dia de França haha).

 

Ao chegar ao lobby, dezenas de bicicletas e capacetes ocupavam todos os espaços do hotel. Os jogadores começaram a colocar os capacetes, subir nas bicicletas e sair pra rua. Eu olhei pro Grafite, que estava fazendo o mesmo. Imitei meu companheiro e segui atrás da galera.
 
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O treino era andar de bicicleta por uma hora e meia, puxados pelo treinador e pelo preparador físico, que se divertiam escolhendo trilhas perigosas nas subidas e descidas das montanhas.

Numa delas, e já debaixo de chuva, o Grafite não conseguiu desviar e acabou caindo morro abaixo. Ele deve ter caído uns dois ou três metros e me lembro quando, uns cinco minutos depois, ele apareceu à nossa vista, com a bike nas costas, todo cortado (cotovelo, pescoço e joelho), reclamando daquela brincadeira sem graça!
 
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Subimos na bicicleta de novo e seguimos nosso “trabalho” até a nascente de um rio, no pé da montanha. Lá, tinha um furgão, cheio de caiaques, remos e coletes salva-vidas.
 
Lá fomos nós de novo, nos vestimos para mais uma aventura. Eu e meu fiel escudeiro (e tradutor) Grafite, fizemos a dupla no mesmo caiaque. Eu entrei primeiro e percebi que a água estava congelante, até porque vinha do gelo no topo da montanha. Grafite entrou no caiaque e cinco segundos depois, a porra do barquinho virou. Eu não sabia se xingava o Grafite ou se tentava desvirar o caiaque pra subir logo e sair daquela água gelada.

Tudo bem, trabalho é trabalho, vamos lá.

Seguimos em frente, desviando de pedras, passando um frio desgraçado porque estávamos molhados da queda e sem fazer a menor ideia de onde aquilo ia nos levar.

Em certo ponto do rio, uma hora e meia depois do início, vimos a comissão técnica, que fez todo o trajeto conosco, encostando na margem e descendo em terra firme. Os outros jogadores acompanharam o movimento. Eu e Grafite seguimos o fluxo, loucos para pegar a van e voltar pro hotel. Mal sabíamos o que estava por vir!

Tira a roupa de caiaque, coloca a roupa de alpinista. Dois bastões pra cada um, pra apoiar na caminhada rumo a 2 mil metros de altitude. Subimos por mais ou menos três horas, juro! Passamos desfiladeiros onde só passava um pé de cada vez, e as pedrinhas caindo lá pra baixo. Pensamos em desistir, apelar com o treinador, pensamos em tudo.

Pensamos até como faríamos pra descer aquela montanha. Será que eles vão inventar um paraglide? Kkkk…. Conversamos sobre todas as possibilidades, até porque em três horas de subida, eu já tava quase falando francês. Pelo menos aprendi uns dois palavrões, só pra xingar o pessoal lá da frente.

Às 20h daquele dia, chegamos no destino. Um chalé lindo, com uma vista incrível para as montanhas e para várias garrafas de cerveja e petiscos. Segundo os franceses: objetivo conquistado, comemoração garantida. Jogadores e comissão técnica bebendo e falando sobre a epopeia que tínhamos acabado de vencer.


Depois da alegria, hora do banho. Eis a primeira constatação em solo francês - franceses não gostam muito desse negócio de banho. Era um chuveiro só, pra 30 atletas mais a comissão técnica. Água gelada! A maioria fugiu, preferiu deitar e descansar.

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Hora de dormir, mas por quê? Cade o paraglide? Quero descer daqui!!! Não, não... vamos ter que dormir no chalé porque amanhã cedo subiremos mais 600 metros, rumo ao topo da montanha.
Beliches espalhadas por um único quarto, como um albergue daqueles de filmes antigos. Mas beleza, eu estava tão cansado que nem percebi se a cama era boa, se tinha barulho lá fora... Hora do descanso dos justos!

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Acordamos às 8h, e aproveitei o café da manha pra tirar o atraso na fome. Me enchi de pão com manteiga e água, porque o café estava “intomável”. Seguimos viagem, rumo ao topo da montanha. Subimos pelo gelo, em fila indiana, sem conversa, sem paciência, só por obrigação.

Lá em cima, tudo lindo, uma paisagem fenomenal, inesquecível.

Hora de descer, que tal correrem? Pois é, africanos, japoneses, sérvios e franceses correndo, se divertindo e eu e meu tradutor Grafite nos perguntando: onde é que a gente veio parar?!

A história terminaria aqui, mas aconteceu uma coisa que não pode ficar sem registro. Volto pra Le Mans e ligo pro Michel Bastos, que também tinha saído do Atlético Paranaense para o Lille da França, na mesma época que eu. Quero saber como ele está, se está se adaptando bem, se está falando alguma coisa em francês. Aproveito a ligação pra contar da nossa pré-temporada, ver se ele se solidariza com tudo que passamos e ele com uma naturalidade muito grande disse: “Sorte a sua, porque nós fizemos tudo isso e ainda tivemos que subir a montanha com a bicicleta nas costas”! Hahaha…

 

 

É mole?
Vive la France!
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TAGS: grafite, histórias, frança, le mans, pré-temporada, treinamentos

 





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