Por que será que as derrotas têm um sentimento mais amargo e marcam mais para os atletas do que as vitórias?
A alegria da vitória passa voando, pois em um curto período de tempo você terá que provar sua capacidade novamente. Já a derrota, mesmo podendo-se vencer na próxima competição, machuca a alma, deixa marcas e feridas internas que poucos conseguem perceber. Esse fato, mesmo que inconsciente, dita o futuro, as mudanças e os sentimentos, como se a partir dali, a mente trabalhasse em piloto automático, buscando navegar em águas tranquilas, evitando nova decepção.
Começa uma louca busca pela perfeição, para que não se erre, não se perca e não se desiluda. Um sentimento, um pensamento, um fardo imaginário que se carrega, repleto de cobranças internas e externas, medos e inseguranças, aliados a uma única certeza, a de que não se é bom o suficiente, mesmo quando se é um dos melhores do mundo.
Infelizmente, essa busca ganhou força ao longo dos séculos, e se disseminou como verdade absoluta, conquistando adeptos pelos quatro cantos do mundo. Como resultado, instaurou na cabeça dos atletas dúvidas e fraquezas, sentimentos como o medo de falhar e a baixa auto-estima, sem se importar com as consequências de sua prática na vida pessoal de cada um.
Eis então o martírio dos atletas de alto rendimento, que, como máquinas, repetem exaustivamente cada gesto, tentando encontrar a maldita da perfeição. Se as pessoas soubessem o que sofrem e o que passam por não serem perfeitos, o que se cobram e deixam de tentar por saberem que poderiam fracassar, talvez ensinassem que a perfeição não está ali para ser alcançada, porque ela simplesmente não existe. O conceito da perfeição, esse sim, deveria ter morrido na horrenda fogueira da inquisição.
Ninguém quer um robô, perfeitamente frio, perfeitamente sem emoção. Se não há emoção, não se pode ser perfeito e se há emoção é impossível que o seja. Eis a lógica que destrói a ideia atual de alguns formadores de atletas.
Quando se derem conta disso, atletas se tornarão seres humanos mais felizes, aliviados. Quando aprenderem que o melhor é buscar a superação, ser melhor hoje do que ontem, terão um ganho de confiança e de possibilidades, que com certeza, os farão sentir ainda mais prazer com a vida e com o esporte, e quem sabe assim, consigam maravilhar ainda mais o mundo com seus feitos.
Para isso, basta que saibamos a verdade: a única perfeição desse mundo é a imperfeição!
P.A
Ser atleta é como paixão de adolescente.
Uma vontade incontrolável e avassaladora de querer estar junto, grudado, como se fosse possível viver num só corpo. Nada mais importa, só aquilo nos alegra e nos dá vida! Sonhar acordado, sentir os pés decolarem do chão, voar e fazer acrobacias, sem medo de errar, sem medo de cair. Sentir prazer com a saudade e com a dor, e ainda, esperar ansioso que outro dia comece para que sintamos tudo novamente. Quando se sente isso pela primeira vez, parece que a eternidade está logo ali, é palpável.
Eis que surgem os primeiros beijos, as primeiras vitórias, potencializando ainda mais essa paixão. Mas como nada é perfeito, surgem também as primeiras brigas, assim como as primeiras derrotas, machucando a alma, tornando tudo escuro, dando a sensação de que agora, é esse sentimento que será eterno e que outro amor ou outra oportunidade de vitória jamais voltarão a aparecer.
A técnica do esporte se aprende com exaustiva repetição, da mesma forma que a vivencia diária entre dois amantes, que ao longo do tempo se tornam parceiros e se conhecem num olhar, num gesto ou até mesmo no silêncio. Os gênios do esporte também têm essa relação com a bola, com a raquete e com as pistas, é amor.
A força mental do jogo se desenvolve nas vitórias e nas derrotas, como se as idas e vindas do amor, as brigas e os acertos, tivessem o poder de expandir um novo horizonte em nossas mentes, nos fazendo amadurecer e enxergar que quanto mais aprendemos, mais distantes ficamos do ponto que julgávamos ser ideal.
Para o atleta, o físico (corpo) é o instrumento de trabalho, a coisa mais preciosa da sua vida, e precisa, assim como o ser amado, de cuidados diários como carinho, atenção, alimento e paciência pois reconhece que é ali, naquela pessoa (corpo), que estão depositadas suas esperanças de felicidade (mesmo que digam que não se deve ser assim, poucos conseguiram evitar esse sentimento). Sem ela, não haveria ar, não haveria pernas para caminhar ou forças pra sobreviver.
Tanto no amor quanto no esporte, as desilusões são inevitáveis, os prazeres também. Para ambos, existem riscos, dos mais diversos. A profundidade que alcançaremos em qualquer um deles está diretamente relacionada ao tamanho dos riscos que estamos dispostos a correr.
Não há ninguém nesse mundo que jamais se deparou com as difíceis dúvidas: Devo tirá-la para uma dança? Será que ligo pra ela agora? É a hora de beijá-la? Chuto ou passo? Direita ou esquerda? Exploro o bloqueio ou desço a mão na bola?
Na verdade não se pode pensar muito, os concorrentes estão soltos pelo salão, assim como pelos gramados e pelas quadras. Deve-se agir, instinto, desejo e paixão, andando lado a lado com o medo, com a vergonha e a decepção. As chances de dar certo são grandes se você está preparado e disposto a entrar nesse caldeirão.
P.A