Deve-se buscar saber como aqueles que conquistaram o que sonhamos fizeram para alcançar seus êxitos. Devemos aproveitar nessa busca também entender se eles são felizes com aquilo que obtiveram para sabermos se vale a pena o sacrifício. É por isso que tenho paixão em ler biografias de grandes esportistas. Fica nítido que as lutas, as dificuldades e os caminhos para se conquistar alegrias e títulos se parecem muito, independente do esporte praticado.
Aprendi muito com a maioria deles, Michael Jordan, Magic Johnson e Phil Jackson no basquete, Michael Phelps na natação, Bernardinho no vôlei, Lance Armstrong no ciclismo e tantos outros no futebol. (Todos livros que recomendo).
Mas o último livro que acabei de ler vem recheado de coisas interessantes, que fizeram com que eu me sentisse aliviado, uma pessoa normal. Ele descreve o lado psicológico do esportista como poucos, fala sobre as conversas internas nos momentos decisivos, da pressão desde muito cedo para se ter sucesso e para não errar.
Andre Agassi ousou expor coisas que outros atletas não publicaram, não sei se porque não sentiram o que ele sentiu ou se não souberam identificar esses sentimentos dentro de si próprios. Indico esse maravilhoso livro e espero que apreciem a leitura: Agassi - Autobiografia.
Abs,
P.A
Muitos conhecidos, amigos de amigos e parentes me procuram constantemente para ajudar um jovem atleta com talento. A maior parte deles pede que eu indique um empresário pois os meninos são bons de bola, se destacam nos seus clubes amadores ou em times juvenis de clubes do interior mas não têm quem dê aquele empurrãozinho. A vontade sempre é a de ajudar, de poder fazer a diferença na vida desses garotos que sonham, assim como eu um dia sonhei, em se tornarem profissionais de futebol.
O problema é que eu mesmo já tive muitas experiências ruins com empresários. Na verdade, não gosto de empresário de futebol. A única pessoa que eu indicaria, seria o meu empresário (e amigo) Hugo Garcia. Mas ele mesmo já disse que não tem como ajudar e que não pode se comprometer com uma coisa que não pode cumprir. Ele diz que não trabalha com quantidade, mas com qualidade e, como sua carteira de clientes já está cheia, não conseguirá prestar um bom serviço. (Ele é bom para mim, o que não significa que ele é aquele que tem mais contatos ou o que faz mais negócios. Significa que ele é honesto e se preocupa com outras coisas (gestão de carreira), além de ganhar dinheiro transferindo pessoas por aí).
Seguindo essa linha de raciocínio, acredito que existam alguns poucos profissionais respeitáveis no mercado, porém não me vejo no direito de indicar alguém pra cuidar da carreira de um menino que tem o sonho de ser jogador de futebol. Essa raça de empresários se tornou vendedora de sonhos e não tem responsabilidade nenhuma com ninguém. Nem com os garotos, nem com os clubes, nem consigo mesmo.
Apesar disso, acho necessário e fundamental um intermediador nas negociações dos atletas, o que não quer dizer um garimpador de talentos que usa sua influência (poder e dinheiro) para assinar procurações e contratos com a molecada por aí. A única solução que vejo, para melhorarmos a qualidade e a transparência no agenciamento dos atletas, é uma regulamentação e uma fiscalização mais dura e severa com esses profissionais, para que evitemos histórias como a que vou contar agora pra vocês.
Eu tive meu primeiro empresário com 16 anos e me lembro como se fosse hoje o dia em que assinei o contrato. Eu e meu pai chegamos a um prédio comercial muito chique na região dos Jardins, bairro da cidade de São Paulo. Fizemos o cadastro lá na recepção e subimos ao oitavo andar. Uma porta de vidro bem bonita separava o presente duvidoso e difícil de um futuro cheio de sonhos, quase como a porta da esperança no programa do Silvio Santos.
Ao entrar, a secretária nos tratou super bem, ofereceu um café e entrou numa sala. Eu e meu pai ficamos olhando na parede inúmeros quadros com camisas de jogadores dos mais diversos times do mundo e outros tantos da seleção brasileira, sem falar nos posters de todos os atletas gerenciados por aquele empresário pendurados na parede.
Conversei um pouco com meu pai e ensaiamos o discurso, quem deveria falar, o que e como. Tínhamos seis ou sete pontos fundamentais que queríamos discutir e entender antes de assinar alguma coisa. Dentre eles, o valor da comissão a ser paga ao empresário, o tempo de contrato e a multa de rescisão.
Por fim, depois de quase uma hora, nos pediram para entrar na sala de reuniões daquele escritório imponente, porque o bendito do empresário já estava livre pra nos atender. A mão estava suando, eu já tinha esquecido tudo que tinha combinado com meu pai, mas tinha que manter a pose. Ao entrarmos na sala, o cara estava ao celular, mas conseguiu com a outra mão apontar as cadeiras para que sentássemos. Logo em seguida, desligou o celular, nos olhou e me disse: “Me falaram muito bem de você”. Meu coração disparou!
O telefone tocou de novo. Ele atendeu, conversou alguns segundos e desligou. Foi a vez do meu pai falar, que eu precisava de um empresário, que caso contrário eu não teria futuro no futebol, porque esse diretor ou aquele treinador tinham esquemas com empresários, e privilegiavam outros garotos. Todo mundo já viveu algo assim, né?
O agente pediu para que ficássemos tranquilos pois ele tinha muitos contatos, muitos jogadores, e começou a falar de negócios e valores. Eu nem acreditava que estava ali, falando dos bastidores do futebol, de negociações e dos salários dos grandes craques do Brasil.
O telefone tocou, agora era o outro, pois já naquela época ele tinha dois ou três celulares, o que também me impressionava. Assim que desligou, ele chamou a secretaria e pediu três vias do contrato de agenciamento e foi logo explicando que aquilo ali (o contrato) não servia pra nada, pois se eu não estivesse satisfeito, poderia cancelá-lo quando quisesse.
Lemos o contrato rapidamente, o qual dizia que ele teria direito a 20% de tudo que eu ganhasse, o que na época representava R$24 dos R$120 que eu recebia por mês. Eu não aguentei o desespero e perguntei: “Eu tenho que te pagar todo dia 20, porque é quando eu recebo, tudo bem?”. E ele disse: “Você vai começar a me pagar a partir do seu primeiro contrato profissional”. Dei um sorriso e pensei: “Acho que nasci para negociar” (rs).
Quando meu pai começou a contestar alguns pontos do contrato, a resposta que tivemos foi: “O contrato é padrão. Tenho o mesmo acerto com todos esses jogadores pendurados na parede. Você não vai querer mudar né? Porque se X ou Y assinam, qual o motivo do Paulo não assinar? É padrão, e fique tranquilo: se não estiver feliz, rasgo o contrato na hora”. Bom, então tudo bem, pensei comigo mesmo! “Outro ponto – disse meu pai – estamos tirando o passaporte comunitário italiano, mas as despesas são altas. Você nos ajudaria com isso?”. Resposta: “Claro, se esse passaporte sair, facilitará muito uma transferência para a Europa. Esse menino é dinheiro em caixa”. (Eu juro ter escutado o som da máquina registradora nessa hora! Rsrs).
O telefone mais uma vez, e ele atendeu prontamente. Aquilo começou a cansar! Olhei para o meu pai, que fez um sinal de positivo. O empresário voltou pra conversa e disse que faria uns contatos pra uma possibilidade de transferência para algum clube alemão ou espanhol, pois pela minha altura e pelo passaporte italiano, seria tudo muito fácil. Daí não tive dúvida, peguei a caneta e assinei as três vias do contrato. Eram quatro anos de contrato irrevogáveis e mais R$300 mil de multa, caso eu viesse a trocar de empresário. (Mas tudo bem porque ele disse que aquilo não valia nada).
Saímos de lá realizados, achando que nossa vida tinha mudado a partir dessa reunião. Meu pai me perguntou se eu tinha gostado e disse que tínhamos que arriscar, pra ver como funcionava. Eu disse, me achando o cara mais experiente do mundo, que agora seria tudo mais fácil, pra ele não se preocupar.
Na semana seguinte, apesar do medo e da vergonha, liguei pro empresário, pra contar alguma coisa ou pedir ajuda, e ele disse que iria resolver. Que aliás, ele iria ao Morumbi me encontrar e conversar sobre a minha situação no clube. Isso se repetiu mais de 30 vezes ao longo dos quatro anos em que trabalhamos juntos. Em cada uma delas uma desculpa era contada pra explicar o porquê dele não ter aparecido por lá.
Depois das 10 primeiras furadas, começou a ser motivo de chacota perante outros atletas da base que também o tinham como empresário, pois era impossível saber quando era verdade e quando era mentira que o cara apareceria. Nos dias em que aparecia, vinha com um punhado de dinheiro, chamava cada um pra uma conversa rápida e deixava uma ajudinha ou uma chuteira pra nos alegrar.
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| Jerry Maguire era um empresário diferente. Será que existe só nos filmes? |
Mas voltando... Quase aos 19 anos, eu estava indo para o Águas de Lindóia Esporte Clube, disputar a sexta divisão do campeonato paulista. Nisso, ele já não me atendia mais e não aparecia pra ajudar. Eu não era mais a galinha dos ovos de ouro. A história se repetia com os outros 30 jogadores do Águas, já que ele era empresário de todos e um dos donos do clube, que tinha como intuito “formar atletas” e vendê-los aos clubes grandes. Depois de um ano vitorioso no Águas, ele conseguiu pra mim um empréstimo de três meses junto ao Guarani, para disputar outra taça São Paulo. Joguei bem e fui transferido definitivamente para o clube, dessa vez com contrato por mais um ano.
No final de 2004, acionamos a justiça contra o Guarani, por falta de pagamento. Entrei nessa com a promessa de que três ou quatro grandes clubes do país estavam atrás de mim e que assim que eu estivesse liberado, fechariam acordo. Passaram-se 10 dias e nada aconteceu. Pedi então pra que ele fizesse acordo com o Guarani para que eu pudesse voltar a jogar. Não queria saber em qual clube, eu queria jogar. Fizemos um acordo no qual acabei ficando com 90% dos meus direitos federativos e uma multa de rescisão baixa.
Alguns meses depois, ele conseguiu uma oferta do Atlético Paranaense, mas com salário inferior ao que eu ganhava no Guarani e sem nenhum tipo de luvas ou premiação. Jogar em um time desse porte era meu sonho, mas mudar de estado e começar uma vida do zero por um salário inferior era complicado. Depois de algumas horas conversando, ele me convenceu da seguinte forma: “Hoje você tem 90% no Guarani, time que está mal na segunda divisão. Vou fazer um acordo com o presidente pra te liberar, porque ele me deve dinheiro (ou favores, não me lembro) e dos 100% que nós teremos, daremos de graça 50% ao Atlético. Os outros 50% que ficarão com você valerão muito mais do que os 90% que você tem hoje no Guarani (valor de mercado). O Atlético é a maior vitrine do momento, acabaram de ser vice-campeões do Brasileirão, concorda?”. Eu respondi: “Até que não é tão burro esse ponto de vista, mas não dá pra melhorar o salário?”. A tréplica foi rápida, “isso deixa que eu resolvo”.
Nesse meio tempo, e por ironia do destino, ele brigou com o sócio, que me ligou e disse que tinha algumas coisas a serem resolvidas. Perguntou se podia marcar uma reunião com o Mário Celso Petraglia, então presidente do Atlético Paranaense. Eu disse que sim, que seria um prazer. Num dia de semana, às 9h da manhã, nos encontramos no saguão de um hotel em São Paulo, e o Presidente explicou todo o plano de carreira pra mim, falou do clube e das aspirações. Por fim, perguntou se eu tinha alguma questão ou alguma dúvida. Eu já estava instruído pelo ex-sócio do meu empresário a perguntar se houve valores na negociação.
O Presidente Petraglia disse: “Sim, já paguei 200 mil dólares ao seu empresário. Está no contrato, você não viu?”. Imaginem a minha cara! Eu não sabia o que fazer na hora. Esse contrato não tinha passado pelas minhas mãos, eu não tinha assinado aquilo. A única coisa que sabia é que queria matar aquele desgraçado.
O presidente do Atlético disse que não pagaria duas vezes e que eu deveria me acertar com o empresário. Depois de alguns dias de negociação, consegui acertar um valor justo com o Atlético, que ficou com 80% do meus direitos econômicos. E a vida seguiu dali pra frente!
Por que contei toda essa história?
Se você é jovem e quer ser jogador de futebol, cuidado em quem deposita as suas esperanças! Empresário às vezes ajuda, mas trabalho e dedicação são seus melhores amigos nessa caminhada. E lembre-se: é você que está contratando o serviço da pessoa e não o contrário. Ele é seu funcionário e se o serviço não estiver satisfatório, mande-o embora.
PS: Houve uma alteração na Lei Pelé que foi sancionada no último dia 17 de março, e falarei sobre ela no próximo post. É sobre empresários, investidores, clubes e contratos. Ela é uma vergonha do ponto de vista dos atletas, vergonha!
Semana que vem falaremos sobre isso.
Abs,
P.A
Algumas pessoas pediram pra que eu escrevesse sobre a disputa dos direitos de TV para transmissão do campeonato brasileiro no triênio 2012-14. Não posso me aprofundar muito no assunto, porém posso comentar o que já escrevi nesse blog, no post “Por amor ao Esporte (Parte III)” no fim do ano passado, antes mesmo da discussão começar.
Acredito que independente da emissora A ou B, o mais importante é o modelo de divisão de cotas entre os clubes participantes. Não acho justo uma divisão igual entre todos (como ocorre na bem sucedida NFL), pois devemos reconhecer e diferenciar uns dos outros, de acordo com o tamanho, a popularidade e a exposição na mídia, mas ao mesmo tempo, podemos dar ferramentas (bonificação pelo critério técnico) para que um menor possa crescer, tornando o campeonato equilibrado e disputado, já que é isso que o faz mais atrativo e rentável a todas as partes envolvidas.
Com relação à disputa dos direitos de transmissão, temos que pensar mais a fundo, e enxergar a dimensão de possíveis mudanças para tentar entender o por que dela estar sendo motivo de tamanha briga, manipulação, uso de poderes, dinheiro e forças ainda obscuras aos nossos olhos. Os interesses que envolvem essa disputa estão nos mais variados campos de atuação, como por exemplo o valor publicitário dos clubes numa nova emissora, a quantidade de exposição do produto futebol na TV, canais abertos e fechados que têm uma grade de programação voltados quase que exclusivamente a esse esporte, além de uma possível competição dos jogos com a novela (numa eventual mudança de emissora e horário dos jogos).
Esses são alguns dos pontos mais fáceis de se enxergar antes de prosseguirmos com os interesses “pessoais” de cada clube, de cada emissora e dos inúmeros profissionais envolvidos com a produção do espetáculo (jogadores, técnicos, jornalistas, comentaristas, produtores, câmeras, torcedores, etc...). Ou seja, quase todas essas questões se resumem a interesses financeiros que, espero eu, devem ter sido calculados (não me perguntem como) por cada um dos envolvidos com direito a votar ou a negociar. Caso contrário, nosso futuro estará embasado em “achadorismos” que seguem o sopro do vento. Numa dessas, ou descobrimos a América ou naufragaremos em alto mar, logo ali, na próxima tempestade.
O jornalista Erich Beting, cujo blog eu indico, tem escrito muito sobre isso, nos municiando com informações sobre tudo que está relacionado ao assunto ao redor do mundo. E num de seus últimos posts, ele mostrou que os clubes espanhóis são os únicos dos grandes da Europa a negociar os direitos de TV separadamente, o que faz o campeonato espanhol perder feio (em arrecadação) se comparado aos outros países.
Para o Real Madri e o Barcelona parece ser legal, mas e o resto? Não que eu não aprecie o incrível futebol desses dois clubes, em especial o Barça, que talvez tenha hoje um dos melhores times de todos os tempos. Mas quem já acompanhou de perto o campeonato espanhol e teve que assistir Numancia x Getafe ou Valladolid x Celta de Vigo, entenderá que esse não é o melhor formato de divisão de cotas para o esporte, muito menos para um país de dimensões continentais como o nosso.
Temos que aceitar que para nós brasileiros, apesar do ótimo espetáculo que pode ser produzido reunindo os melhores jogadores do mundo em duas ou três equipes, fica muito sem graça se o compararmos ao amor que temos pelos nossos times de coração.
Imaginem vocês, alguns times tradicionais (e já premiados com o título nacional) sem nenhuma chance de voltar ao topo, sendo engolidos pelos mais ricos, e para sempre! (Não haveria administração exemplar, formação de atletas de base ou geração de receitas através de outras fontes que aproximariam os extremos).Temos que ter cuidado e não pensar só no curto prazo.
De qualquer forma, acredito que essa discussão que vem ocorrendo nas últimas semanas é benéfica para o futebol e para o país, pois expõe problemas básicos que já deveriam ter sido resolvidos no desorganizado futebol brasileiro. Quem sabe agora, aproveitemos a situação para evoluir.
Paulo André
Como no último post falei um pouco sobre formação de atletas e de jovens, gostaria de continuar no mesmo rumo pra tentar refletir sobre por que o futebol brasileiro continua revelando excelentes jogadores (e não atletas), em menor quantidade que antigamente, mas ainda assim, em grande escala se comparado ao resto do mundo.
Uns dirão que é pela quantidade de matéria-prima (número de jovens tentando ser jogador de futebol), outros acharão que o talento futebolístico é nato do povo brasileiro e a revelação de um craque é “pura sorte”, pois não há lógica ou pedagogia na sequência de treinamentos e na evolução da carreira… Pouquíssimos arriscarão dizer que é pela qualidade na formação ou pelos bons formadores existentes nas categorias de base dos clubes brasileiros. E é sobre isso que eu quero falar!
Apesar de saber que continuamos todos em formação, num eterno aprendizado no qual cada treino ou cada jogo que participo ou assisto pode me ensinar coisas novas ou até eliminar antigos vícios, acredito que o período da base é o mais importante para a evolução e consolidação dos fundamentos técnicos, táticos e físicos do futebol.
Eu passei seis anos “me formando” por aí, em quatro clubes diferentes, vi coisas boas e coisas ruins, treinadores que entendiam do jogo e outros que não me ensinaram nada por anos. Preparadores físicos que aplicavam o “treino em fornada” (todo mundo junto), e outros que buscavam a especificidade de cada um (na verdade, não me lembro de ter vivido isso na base...). De qualquer maneira, tive bons e maus ensinamentos, alguns bons treinos, mas a maioria deles foi de assustar.
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| Indicação de Filme: "Um domingo qualquer" |
Ao longo dos anos vi cada coisa por aí... Treinamentos físicos que tínhamos que correr na montanha por 10km num determinado tempo, enquanto passava uma Kombi do clube recolhendo os que vomitavam ou passavam mal, vi também reações espetaculares de treinadores, dignas de cinema, criticando ou acabando com garotos em formação, vi ainda, treinadores da base chegando bêbados nas concentrações, e por aí vai... Em contrapartida, me lembro de um dia, em 98 que meu pai apareceu no clube e perguntou porque eles não assinavam jornais e revistas para que nós atletas pudéssemos ler ou pelo menos olhar o que acontecia no mundo. Foi taxado como louco pelo diretor na época e quase comprometeu minha continuidade no time.
Na maior parte dos casos, ex-jogadores, sem formação, sem preocupação educacional, pedagógica ou psicológica, utilizam-se de sua história de vida como meio para ensinar seus pupilos. O problema é que a responsabilidade deles é enorme, já que servem de espelho para jovens que deixam suas casas muito novos, e depositam toda sua esperança de vida na prática daquele esporte.
Sem dúvida a experiência pratica é muito importante, mas no futebol há uma perpetuação do erro por falta de formação dos profissionais que formam os atletas de base. O futebol é o único esporte que ainda aceita jogadores, e não só atletas. Aliás, eu dividiria aqueles que jogam futebol profissionalmente em três grupos: Os boleiros, os jogadores e os atletas (falarei sobre isso num próximo post).
Acredito que ex-jogadores possam entender mais de futebol do que qualquer outra pessoa, embora não seja uma regra. Um exemplo interessante é o Ney Franco, que não foi jogador, porém se tornou um grande treinador (hoje dirige a Seleção Brasileira Sub-20).
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| Indicação de Filme: "Duelo de Titãs" |
Mas só ter sido jogador não capacita a pessoa a formar atletas. Mesmo os ex-atletas mais experientes e vividos dentro do esporte, deveriam ser obrigados a ter uma formação e se preparar melhor para uma função tão importante, capaz de ajudar o jovem a crescer dentro e fora das quatro linhas. Talvez assim, o objetivo principal do esporte (especialmente da base), que hoje é voltado para o rendimento, possa ser dividido com a importante função de formação e educação de pessoas.
Um exemplo claro disso acontece em alguns países europeus, onde pessoas formadas em Educação Física, outras com conhecimento em futebol e até mesmo ex-atletas que queiram dirigir categorias de base ou clubes profissionais são obrigados a se formarem como treinadores específicos do futebol, curso dado pela Federação ou Confederação de Futebol, padronizado e reconhecido pela legislação esportiva do país.
Esses cursos são divididos por graduações, e em cada nível de aprendizado a pessoa ganha uma credencial para trabalhar especificamente em uma divisão do futebol daquele país. São necessários alguns anos de estudo (pedagogia, psicologia e gestão aplicadas ao esporte, além de aprendizagens em táticas e treinamentos) para que o ex-atleta possa se sentar no banco de uma equipe profissional da primeira divisão e dirigi-la.
Isso é visto como chateação por grande parte dos profissionais que já atuam no futebol brasileiro, pois dirão que futebol não se aprende em sala de aula. É fato que eles saberão praticamente tudo que é ensinado sobre o que acontece dentro das quatro linhas, mas acredito que terão muito a aprender com o que se passa “fora” delas (mas implícitas ao jogo).
Apesar de saber que o Brasil também é um grande exportador de técnicos, principalmente para o mundo árabe e muitos países do oriente, acredito que a qualidade dos formadores pode melhorar. É claro que não será esse curso que os tornará os melhores treinadores do mundo, mas lhes dará ferramentas e um certo conhecimento da responsabilidade social da função que eles exercem, e da possibilidade de formar seres humanos num país que ainda não oferece essa oportunidade na educação pública.
Sabendo que os jogadores têm cada vez mais exposição na mídia e são exemplos para a sociedade, em especial nossas crianças, temos que nos preocupar com a imagem que é passada a cada dia. Isso começa na instrução que vem das categorias de base. Não estou indo contra a minha classe, estou indo a favor do meu país! A fábrica de talentos continua a todo vapor apesar disso, e não por causa disso.
Abs,
P.A
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| Espiga. Fev/99 |
O Espiga jogou nas categorias de base do SPFC por seis anos. Tomou todo tipo de suplemento que vocês podem imaginar e mesmo assim não ganhou muito peso.
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| Eduzinho, eu e Sr. Peruca (Glauber) |
Quase ninguém conhece essas histórias, pouca gente sabe que só alguns esportistas, se comparado à montanha dos que tentam, obtém sucesso e conseguem ajudar suas famílias. Esses vencedores são adorados pelas suas trajetórias difíceis, idolatrados pelas suas conquistas e servem de exemplo para muitos, que os vêem como a esperança e o único caminho de salvação para suas dificuldades.
Mas e a história desses tantos outros jovens que por ironia do destino não conseguiram chegar ao estrelato? Quais foram as consequências emocionais, psicológicas e físicas para essas pessoas? Onde eles se encontram hoje? Posso falar um pouco da minha experiência no assunto.
Estou nessa caminhada desde os 14 anos de idade e cruzei com muitos sonhadores na estrada. Moramos juntos nos mesmos alojamentos, comemos nos mesmos refeitórios, dividimos alegrias e tristezas, sonhos e realidades. Choramos por saudade de casa, por medo de não dar certo, por conta de derrotas e por amigos que iam ficando no meio do caminho. Apesar disso, seguimos em frente, na esperança de nos tornarmos atletas profissionais. Nesse tempo, fiz muitos amigos, amigos de verdade!
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| Eu, Adriano Cabeção, João Flávio, Joaquim e Eduzinho Já em 2003 no Guarani, fui a Águas pagar pizza pra galera |
O que eu posso constatar dessas experiências é que a maioria deles sequer terminou o terceiro colegial (hoje Ensino Médio). A maioria deles não conseguiu ajudar a família. A maioria deles viveu num mundo de ilusão e hoje trabalha como empacotador no mercado, cobrador de ônibus, segurança de casa noturna. Outros voltaram para o interior de Recife ou de Alagoas e vivem na miséria, sem esperança de dias melhores. (Não quero aqui desmerecer essas profissões, que são muito dignas e essenciais para toda a sociedade, quero apenas mostrar o contraste da realidade atual com o sonho de outrora).
Hoje, muita gente foca nos ídolos, no sucesso, na fama e na superação dos que deram certo, mas nos esquecemos de cobrar nossos governantes a respeito de outras possibilidades para o desenvolvimento individual de cada cidadão, de cada família e de nossa sociedade como um todo, porque com certeza, não teremos Ronaldos, Gugas e Cielos em qualquer esquina para “salvar a pátria” lá em casa.
É claro que é impossível que todos obtenham sucesso no mesmo ramo de trabalho. Exatamente por essa razão, decidi escrever, para que comecemos a nos preocupar em formar melhor nossos jovens para a vida, independente das variáveis implícitas em cada sonho, ou seja, independente de estarem ou não dentro do esporte, de terem sorte ou azar num momento decisivo ou até mesmo que tenham ou não competência para chegar lá, a educação tem que ser prioridade. Não podemos admitir que um cara que tentou ser jogador, chegue aos 20 anos só sabendo jogar bola e não tenha evoluído em outros setores da vida.
Minha mãe sempre disse: “O conhecimento é uma das poucas coisas que ninguém pode roubar da gente”.
Esse é o ponto que quero deixar para reflexão:
Nos preocupamos em deixar um mundo melhor para os nossos filhos, mas quando é que deixaremos filhos melhores para o nosso mundo?
Utopia? Talvez! Mas tenho certeza de que acreditar que é possível já é o primeiro passo.