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A noite da véspera

Em 04/12/2011 às 14:00h

Zagueiro do Corinthians, a pedido do JT, escreve texto para contar sua ansiedade e emoção um dia antes da decisão do Brasileirão (Postado por Assessoria)


\\\\\\\'Tentando tapear o nervosismo, me engano assistindo um filme, lendo um bom livro. Nada funciona. Mudo a estratégia e decido conversar com os colegas, eles poderão me distrair. Passo de quarto em quarto. Portas fechadas, silêncio total. Todos devem estar lutando suas próprias guerras. Assim desconfio, mas não ouso perguntar pois não quero atrapalhar a distração de ninguém. Será que estão imaginando como estaremos à noite, após a partida? Volto para minha cama, esboço uma tentativa de escrever algum capítulo do livro que estou finalizando, mas será impossível. Experimento dormir. Fecho os olhos. Escuto o barulho da torcida. Vejo o Pacaembu lotado. Ouço o apito do juiz e os detalhes da bola rolando até mim. O coração acelera. Desisto de dormir. Levanto. Me olho no espelho. Sorrio e penso: \\\\\\\"Chegou a hora\\\\\\\".

A cabeça está a mil. Sei que não há nada ganho. Fico apreensivo, pensando que pior do que não ter chegado até aqui seria entregar o título, de bandeja, ao adversário. Não posso permitir isso. Esse sofrimento poderia ter acabado na semana passada. Mas não aconteceu e agora já foi. Como consolo, digo a mim mesmo que em casa poderá ser ainda mais especial. A família estará presente. Temos um clássico pela frente.

Só nos falta um ponto, um bendito ponto. Sabemos como consegui-lo, estudamos o adversário. Repetimos exaustivamente os movimentos. Não cairemos na besteira de achar que já está ganho. No futebol ninguém jamais venceu por antecipação.

Abstraio, busco lembranças positivas. Sinto merecer essa conquista. Visualizo o último treino, cheio de brincadeiras, exatamente como nas 37 rodadas anteriores. Isso me tranquiliza. Esse grupo sabe o que quer. Tem alma, se emociona, se supera, surpreende. E está pronto para lutar pela coroação.

Penso na festa, nos meus sonhos de criança, realizados um a um. Mas ainda não consigo me entregar ao momento. Um frio na espinha me faz retomar a consciência, como um sinal de alerta que me faz colocar os pés no chão: Reconhecer a batalha que temos pela frente. Sentir nos ombros o amor e a pressão de mais de trinta milhões de sonhadores que esperam em nós.

Penso que é hora de descansar. Deixar as emoções do jogo para o momento certo. Desfrutar destes instantes que antecedem a partida. Jamais deixar de sonhar. Darei tudo para terminar o dia em cima do carro de bombeiro, comemorando pela cidade. Mas ainda nos falta um ponto, o ponto final.

Nesse turbilhão mental fiquei até poético e tento dar beleza a esse momento tão tenso, nada agradável. Termino esse texto reproduzindo como me sinto às vésperas de protagonizar o que parece ser a última cena de um filme muito, muito emocionante:

Num domingo qualquer, ainda criança, sonhei em correr pelo gramado, chutar bola, ganhar um troféu, me jogar no chão.

Num domingo qualquer, quando era garoto, sonhei em jogar futebol, ver o campo lotado, disputar um clássico, trocar camisa com o adversário.

Num domingo qualquer, já adulto, sonhei em dar entrevista, comemorar um gol com a galera, disputar um título e andar de carro de bombeiro.

Hoje é domingo e ainda sonho, aspirando alto, em ser campeão brasileiro.\\\\\\\'

Paulo André Benini, atleta, zagueiro do Corinthians e escritor ainda iniciante



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